Contratempo de amar – Capítulo IX
– Isabel, tudo isso tem sido um inferno. – ele desabafa, ainda me encarando – Eu nunca imaginei que iria te ver outra vez. Há muito tempo eu sequer havia parado pra me lembrar de você. Quando você foi embora, eu não sabia o que fazer. – sinto meu estômago embrulhar – Eu só queria esquecer tudo. E aí você aparece aqui. – ele dá uma risadinha percebendo a ironia da situação – Eu não soube como reagir. Tudo voltou à tona, toda a dor…
– Eu estava sofrendo também. – consigo falar, quase de forma audível.
– Eu sei. – ele suspira – Eu sei que você sofreu como ninguém. Mas naquela época eu não entendia. E depois que amadureci, nunca me permitir pensar novamente nisso, analisar o seu lado… Era mais fácil deixar quieto. Mas agora eu sei.
– Eu pensava em você enquanto estava longe. – digo, sincera, e ele me olha confuso – Você disse que não parava pra lembrar de mim. Eu lembrava de você o tempo todo.
– Bel… – meu coração bate mais forte quando o ouço se dirigir à mim daquela forma, mas o interrompo.
– Não estou cobrando. – esclareço – Só quero que você saiba que não foi uma decisão fácil pra mim ir embora daqui. Pode parecer que eu não estava sentindo nada, mas eu estava sentindo tanto que mal podia respirar. Eu passei anos vivendo no piloto automático, Diego. – meus olhos se enchem de lágrimas ao lembrar e ele desvia o olhar, como se não quisesse pensar nisso – Eu lembrava de você a cada segundo. Do seu olhar me vendo ir embora. De tudo o que passamos juntos… Mas eu precisava ir.
– Eu sei. – ele torna a me encarar – Hoje eu sei.
– Eu não espero que você volte a confiar em mim como antes, ou que voltemos a ser amigos como antes… – suspiro – Mas eu realmente gostaria de não ter o seu ódio, ou o seu desprezo.
Diego olha pra mim como se estivesse escolhendo as palavras certas para me dizer. Pela primeira vez consegui encará-lo sem receios. Ele se aproximou e eu congelei por um segundo sem prever qual seria a sua reação. Ele se abaixou à minha altura na cadeira segurando em meu rosto e me envolveu em seus braços de forma terna. Como eu havia sentido falta daqueles braços ao meu redor! Senti-los outra vez era quase um sonho, e eu temia acordar a qualquer momento. Enterrei minha cabeça na curva do seu pescoço, aspirando o seu cheiro que estava tão diferente de antes. Tão mais másculo, mais envolvente… Ficamos assim por algum tempo, até ele se desvencilhar de mim.
– Nós podemos tentar. – fala por fim.
– Sim. – concordo com a cabeça – Podemos tentar.
Era como se um peso tivesse saído das minhas costas. Sei que provavelmente as coisas não voltariam a ser como antes, mas saber que teríamos mais uma chance me deixava muito feliz. Enfrentar os olhares tortos dos outros advogados me julgando pela minha promoção não seria fácil, mas ao menos eu teria Diego do meu lado. Fui para casa enfrentar a difícil tarefa de contar tudo o que aconteceu para as meninas.
– Eu te procurei feito louca na empresa! – Joana dispara – Quando eu soube o que aquele animal tinha feito, fiquei maluca! O Gustavo me liberou pra que eu pudesse ficar com você o restante do dia…
– Ai, Bel, eu nem acredito que aquele homem teve a coragem de bater em você… – Cati diz, incrédula.
– Mas já passou. – acalmo as duas – Não foi nada, sério.
– Até porque o mais importante é o que aconteceu depois, não é? – Jo pergunta, em tom malicioso.
– O que aconteceu depois? – Cati pergunta, sem entender.
– Ela e o Diego passaram uma vida dentro da enfermaria… Deram asas à imaginação de muitas pessoas. – explica, ainda fazendo graça, e Cati me encara com uma expressão de choque.
– Ei ei ei! Parem vocês duas! – interrompo, rindo – Nós estávamos conversando. Só isso.
– O que já é um avanço no que se trata de vocês… – Cati alfineta – Mas o que ele queria conversar com você? Depois daquele vexame todo na casa do Gustavo?
– Nós meio que fizemos as pazes… – as duas me olham, sem acreditar – Digamos que foi um momento de limpeza da alma. – me deito no sofá, pensando sobre a conversa.
– Nossa, não dá pra acreditar nisso. – Joana responde, ainda chocada – Mas eu fico feliz que vocês tenham decidido acabar com esse clima.
– É, eu também estou feliz. – respondo, sincera.
– Agora só falta assumirem o romance… – Cati diz, e eu jogo uma almofada em seu rosto – Au! – resmunga.
– Não tem romance nenhum. – afirmo – Nós somos amigos. Sempre fomos. É só isso que eu quero.
– Tá certo, não tá mais aqui quem falou! – Catarina responde, com um bico.
– Eu vou tomar uma ducha e tentar dormir. – disse, me dirigindo pra o quarto – O dia hoje foi muito longo.
São Paulo, Brasil – 2003.
– Tem certeza que não precisa de mais nada, Isabel? – tia Cláudia me perguntou novamente antes que eu saísse pela porta.
– Não, tia Cláudia, obrigada. Só precisava do leite mesmo. Quero fazer uma surpresa quando ela chegar do trabalho. – respondi, eufórica.
– E não quer ajuda nessa operação bolo surpresa? – riu com minha empolgação.
– Não, vou fazer tudo sozinha! – bati no peito, teatralizando – Passa lá mais tarde com o Diego pra comerem um pedaço do bolo. Ela vai adorar ver vocês lá.
– Vamos sim. – sorri, enquanto abre a porta – Você é uma menina de ouro, Isabel. Tenho certeza que a Elizabete vai adorar sua surpresa.
– Espero, ali é difícil de agradar. – arregalo os olhos, brincando – Tchau, tia Cláudia!
Sigo o caminho até em casa feliz. Mamãe irá adorar ver um bolo quando chegar do trabalho. Quando viro a esquina, avisto um carro de polícia parado em frente a minha casa, e sinto meu coração acelerar.
– Em que posso ajudar? – pergunto a um dos policiais, mantendo a calma.
– Você é Maria Isabel? – torço o nariz ao ouvir meu nome inteiro, mas concordo com a cabeça – Sua mãe desmaiou no trabalho, ela foi levada ao hospital. Vim aqui para levar você até ela.
– Isabel? – Joana bate na porta do meu quarto, abrindo em seguida – Tudo bem? – pergunta ao me ver acordada, olhando pro teto – Você não costuma acordar tarde, achei que seria melhor te chamar pra não se atrasar.
– Eu tô bem, Jo, obrigada. – minto – Já vou levantar.
Semanas haviam se passado e Catarina já havia voltado pra Alemanha. Sua estadia aqui me fez perceber o quanto eu sentia a sua falta e precisava dela por perto. Joana é uma amiga incrível, mas Catarina passou maus bocados comigo durante a faculdade. Era muito bom tê-la por perto, e hoje, acredito que seria indispensável. Certas coisas poderiam ser demais pra Joana.
– Isabel, você tá bem mesmo? – Joana tornou a perguntar durante o nosso café da manhã – Tô te achando tão aérea.
Ainda era muito cedo pra despejar toda minha carga em cima dela. Sua amizade era algo que eu prezava muito, mas não seria justo levar ela pra o meu poço de tristezas do passado. Eu só precisaria vencer este dia. Um dia. Ela não merece ser bombardeada com os meus traumas e feridas.
– Só estou preocupada com alguns processos que vou precisar encerrar hoje. – respirei fundo, tomando um gole do meu café.
– Você é a melhor advogada que eu conheço, vai tirar isso de letra. – sorri pra mim, me fazendo sentir ainda mais culpada.
O dia se arrastou e eu me sentia no piloto automático. Durante a reunião do setor, minha mente viajou pra diversos lugares, menos pra o que eu preciso estar de fato. Todos estão participativos e eu só consigo pensar em me trancar dentro do meu quarto e ficar lá até amanhã.
– Isabel? – Diego me chamou, e pelo tom percebi que não foi a primeira vez.
– Perdão, o que? – respondo, ainda confusa.
– Os processos. – ele torna a falar – Está tudo resolvido?
– Ah sim. – entrego a pasta – Estão todos aí.
– Bem, eu acho que por hoje é só… – ele encerra, me encarando desconfiado – Podem ir. – fala para os outros advogados, e se aproxima de mim – Está tudo bem, Bel?
– Está sim, só estou um pouco indisposta. – forço um sorriso – Você ainda vai precisar de mim hoje?
– Não… – ele continua me encarando, como se estivesse me analisando
– Se não for pedir muito, gostaria de ir pra casa. – peço, rogando pra que ele me deixasse ir. Não fazia sentido estar na empresa e não prestar atenção em nada ao meu redor.
– Pode ir pra casa. – ele continua estudando minha expressão – Eu espero que amanhã você esteja se sentindo melhor. Qualquer coisa, você me liga?
– Obrigada. – me levanto – Eu ligo sim. Até amanhã.
– Até. – sussurra.
Eu não podia ir pra casa. Ainda estava me sentindo arrasada, e esconder isso de Joana era desgastante. Olhei meu celular e vi várias chamadas perdidas de Catarina, provavelmente querendo saber como eu estava lidando com as lembranças. Tenho certeza de que ela lembra exatamente que dia é hoje. Precisava de um lugar pra espairecer, pra me reestruturar. Talvez eu ainda soubesse o caminho daquele lugar… A cidade não havia mudado tanto assim.