Aguenta Coração – Capítulo 4
Mansão Mastur – Noite – Velório.
Virgílio: Eu vim apenas prestar os meus pêsames a uma pessoa muito querida.
Divina: Querida? Querida? Confessa logo Virgílio. Foi ou não foi você quem matou doutor Virgulino e dona Oneide? Fala!
[Todos ficam tensos]
Virgílio: Olha, acredite-se quiser. Eu não tenho motivos para matar o Virgulino, nunca tive. Foi uma campanha justa, mais de quinhentos votos de diferença. O povo o queria mesmo na prefeitura.
Divina: Se você diz… Ao menos agora o Seu Eurípedes vai assumir a prefeitura.
[Eurípedes fica tenso]
Eurípedes: Não Divina, não vou.
Divina/Fátima: O quê?!
Virgílio: É isso mesmo! É bom que estejam todos escutando isso, pois o Eurípedes desistiu de tomar a posse no lugar do prefeito, portanto eu fiquei em segundo lugar e serei o novo prefeito de Baixa das Éguas.
[Todos ficam perplexos]
Fátima: Eurípedes? O senhor deixou?
Eurípedes: Me desculpem, eu não tive outra escolha.
Virgílio: O recado está dado, agora se não se importam, eu preciso ir. Passar bem.
[Ele sai, todos ficam com semblantes de preocupação.]
Senhora da Hora, Portugal.
Aeroporto – Manhã.
[Bella e Kelly chegam ao aeroporto, ambas muito produzidas.]
Bella: Mal lhe pergunte Kelly, mas onde conseguiu dinheiro pra comprar tanta roupa?
Kelly: Economias querida, economias. Por que eu sempre tive glamour, dinheiro é que estava em falta, mas agora… Ah, agora tudo vai mudar minha querida.
Bella: O tal delegado mandou o passaporte?
Kelly: Tudo organizadíssimo!
Bella: Dá tempo de eu ir ao banheiro?
Kelly: Se for correndo, dá sim.
Bella: Ótimo.
[Ela sai. Felipe e Max vão se aproximando, Kelly tira o óculos de sol pra ver melhor. Felipe e Max sentam ao lado dela.]
Kelly: Meu Deus, de repente me bateu um calor.
Felipe: Tudo bem?
Kelly: Ô se está, hein? Tudo perfeito…
Felipe: Que bom…
Kelly: Eu preciso ir ao banheiro, você pode olhar minhas malas por um segundo?
Felipe: Claro que sim.
Kelly: Ótimo, eu vou levar essa.
[Ela pega a mala de Bella e segue em direção ao banheiro.]
E o amor resistiu ao tempo.
A paixão move os meus dias!
Não escolhi música. A música me escolheu!
[Kelly caminha no aeroporto e encontra o responsável pela limpeza.]
Kelly: Com licença, o senhor poderia me emprestar a chave do banheiro? É que sem querer a minha amiga se prendeu lá dentro.
Élio: Eu vou lá com você.
Kelly: Não, não precisa. Vai entrar no banheiro feminino? Me dá só as chaves, eu trago num instante.
Élio: Mas não deixe ninguém saber que eu te entreguei.
[Ele pega as chaves e entra a ela]
Kelly: Volto num instante.
[Ela vai caminhando em direção ao banheiro.]
Kelly: Bellinha querida, ainda não vai ser dessa vez que o Brasil vai te ver.
[Ela ri sozinha]
Casa de Divina – Manhã – Sala.
[Divina destranca a porta entra em casa, ela acende e a luz e se assusta ao ver seus filhos: Marcão – 18 anos – e Geleia – 14 anos – mostrando a geladeira nova.]
Divina: Aaaaah! Eu não acredito!
Marcão: Feliz dia das mães atrasado, mãezona!
[Os três se abraçam]
Geleia: Sabemos que já faz quase um mês que passou o dia das mães, mas só agora conseguimos te dar um presente.
[Marcão dá um tapa na cabeça de Geleia]
Marcão: Precisa lembrar que faz tanto tempo?
Divina: Não precisava de presente, mas é linda, tem até porta do congelador separada. Sonho de consumo!
[Geleia abre a porta da geladeira]
Geleia: E olha só, compramos as caixas do seu mingau preferido.
Divina: Não acredito, vocês são os melhores filhos do mundo.
[Os três se abraçam novamente]
Divina: Só vocês mesmo pra me alegrarem num dia desses, passei a noite inteirinha na casa do finado Virgulino… Não sei o que será do meu emprego.
Carro – Manhã.
[Dentro de uma garagem escura, duas pessoas conversam dentro do carro.]
– Suicídio? Enlouqueceu? Depois de matar e destruir a família Mastur você vem me falar de suicídio?
– Você diz isso por que não foi você quem matou, não sabe o quanto é ruim ter a consciência pesada.
– Mas se suicidar não é a saída.
– Então eu vou me entregar para a policia.
– De jeito nenhum! A ideia foi sua e agora aguente as consequências.
Sanitário Feminino do Aeroporto – Manhã.
[Kelly entra no banheiro, duas mulheres sai. Ela vai andando e todos estão vazios, até que ela chega a um com a porta fechada, ela se abaixa vagarosamente e percebe que são os sapatos de Bella. Ela tranca a porta. Bella percebe que alguém a trancou.]
Bella: Quem está aí? Kelly, é você?
[Kelly liga todos os chuveiros para abafar os gritos de Bella. Ela pega um papel-toalha da pia, retira uma caneta da bolsa e escreve “Interditado”. Ela deixa a mala de Bella no chão. Retoca a maquiagem olhando no espelho, sai, tranca a porta do banheiro e cola o papel-toalha com fita adesiva na porta.]
Kelly: Prontinho! Brasil, meu querido, aí vou eu.
[O chamado para os passageiros do avião é acionado.]
[Bella continua gritando, mas ninguém a ouve]
Bella: Socorro! Kelly, me ajuda! Socorro, por favor, me tirem daqui.
Aeroporto – Manhã.
[Kelly chega onde Max e Felipe a esperam.]
Kelly: Demorei?
Felipe: Não muito, mas o avião já chegou.
Kelly: Muito obrigada, por ter vigiado minhas malas.
Felipe: Não tem que agradecer, foi apenas um favor.
Max: Felipe, dá pra andar logo?
Felipe: Vamos?
[Max e Felipe vão na frente. Kelly pega as chaves do banheiro e joga no lixo. Antes de entrar no avião ela coloca o óculos de sol e conversa sozinha]
Kelly: Nova vida, tudo novo, esse dinheiro que me aguarde. Bye, bye, Bellinha…
[Ela entra no avião]